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Carta aberta a Romário
O dia em que fiz um apelo ao maior atacante que vi jogar por Fábio Matos
Caro Baixinho, De antemão, são necessárias algumas considerações importantes. É fundamental que saiba, com toda a sinceridade possível, do apreço que este humilde escriba tem (teve?) por seu futebol. Creio que, com absoluta justiça e uma boa dose de gratidão de um amante do esporte bretão, sempre tive como evidente a constatação de que foste um dos mais geniais centroavantes de todos os tempos. Em solo tupiniquim, certamente o maior deles (e a opinião, mais que credenciada, também é de Mestre Tostão, fantástico craque nos anos 60/70 e, atualmente, brilhante colunista da Folha). Em todo o mundo, contam-se nos dedos de uma mão aqueles que podem ser a ti comparados, computadas todas as épocas. Tiveste papel imprescindível no tetracampeonato de 1994, nos EUA. Aliás, já antes disso, na sofrida disputa das Eliminatórias, quando classificou o Brasil ao Mundial com dois gols diante do Uruguai, no Maracanã. Depois da Copa, não foram poucas as vezes que lhe deram como vencido, como se já pudeste ser considerado um veterano inofensivo. Ou que tentaram menosprezar teu imenso talento entre as quatro linhas com justificativas pífias e moralistas, como as que salientavam um suposto “mau comportamento” fora de campo. Este que vos escreve, em todas essas ocasiões, orgulhou-se de defender-te com afinco e, satisfeito, acompanhou sua série de conquistas marcantes pós-tetra, como a do Brasileiro de 2000, pelo Vasco, jogando o fino da bola no auge de suas 35 primaveras. Para desespero dos puritanos e preconceituosos. Eis que agora, Romário, finalmente vejo-me obrigado a concordar com seus eternos opositores. Não por birra pessoal, muito pelo contrário, já que continuo admirando sua personalidade, que prima pela transparência e passa longe da hipocrisia reinante no mundo do futebol. A questão, no entanto, é que não sinto-me confortável ao ver um “arremedo” de jogador perambulando pelos gramados, com o medíocre e potencialmente “rebaixável” time atual do Fluminense; ou proporcionando cenas deprimentes como as da última terça-feira, nas Laranjeiras, em que agrediste um torcedor indignado (chato e desocupado, é bem verdade, mas que jamais mereceria tal tratamento). Como um moleque tresloucado e irritadiço, cobriste o pobre coitado com socos, pontapés e safanões, acompanhado de um covarde que, pasmem, é seu próprio fisioterapeuta (ao que parece, mais familiarizado com sessões de vale-tudo). Com pedigree de campeão do mundo, como chegaste a este ponto? É bobagem insistir diante do ocaso. Comprometer a imagem de uma das mais belas trajetórias do futebol brasileiro, deixar como último rastro um possível rebaixamento à Segunda Divisão nacional, brigas características de gangues de rua e discussões acaloradas com torcedores e companheiros de equipe, idas e vindas a clubes insignificantes do Oriente Médio ou o que seja. A precisão de gênio que o imortalizou nos gramados precisa, agora, ser aplicada no momento de percepção do que já é cristalino: és um ex-jogador de bola, e como dói dizer isso. Foste fantástico, diferenciado, sensacional. Dono de técnica refinada, artilheiro por onde passou, ídolo nacional, o nome do tetra, de currículo admirável. Mas hoje és um ex-boleiro, apenas uma imagem ilusória e saudosa. O melhor a fazer, caro ídolo, é deixar que teus milhões de admiradores em todo o planeta mantenham acesa a chama da boa recordação. Que os tricolores, rubro-negros e vascaínos recordem de ti como o decisivo matador que tantas glórias lhes trouxe. Que os fanáticos torcedores catalães do Barcelona guardem em suas mentes, orgulhosos, os belos gols e lances de pura genialidade, como também os simpatizantes do espanhol Valencia e do PSV Eindhoven, da Holanda, devem fazer. Que a multidão brasileira, eternamente agradecida, entre tantas coisas, pelo tetra, sempre sonhe com o Romário ousado, imprevisível, artista, incomparável no ínfimo espaço da pequena área adversária. E não com o briguento que perde seu tempo para espancar o primeiro desocupado que encontra pela frente. Confesso não ser muito afeito a dar conselhos, por achar que a vida é mesmo a arte de resolver problemas e estar certo de que alguém com 37 anos sabe bem como enfrentá-los. Mas, quase como uma súplica, vos peço: pára. Oficializa um fim que já existiu. Pega seus mais de 800 gols, todos os títulos, prêmios e recordes, e os coloca debaixo do braço sem precisar sequer ostentá-los. Aproveita o descompromisso profissional (como sempre fizeste, aliás, mas agora sem o incômodo da cobrança), sai por aí, joga futevôlei, cai na gandaia. E, como se transcendeste à condição de imortal, sente a devoção dos que te veneram, merecidamente, como um mito. Atenciosamente. Fábio Matos
Thaís - São Paulo - 23/10/2003 ~ 12:04
Luís - Sp - 24/10/2003 ~ 15:55
Marco Antônio - 26/10/2003 ~ 16:08
Rafael - Rio de Janeiro - 31/10/2003 ~ 21:16
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